Um sábado a tarde e eu poderia simplesmente ver o tempo passar ou me descabelar com infinitas matérias que estão sempre atrasadas. Não. Após ler uns blogs seus mais antigos, me inspirei pra te escrever para esse dia. Não tinha muita certeza se deveria, até porque não quero parecer "puxa saco", porém gostaria de falar um pouquinho sobre você, Má, e suas aulas esse ano...
No começo, a impressão da maioria era a mesma: grossa, ríspida, fala o que pensa e com a maior sinceridade possível, ponto que considero louvável, porém todos passam a ter um pé atrás pra falar com você, até mesmo para tirar dúvidas, mas com dois meses isso já passa. Fui diferente. Chegava aos meus ouvidos antes de janeiro frases como: "você vai ter aula com a Marcella Rosa? Nossa, que sorte, ela é foda, mas sabe ser muito grossa também", o que me levou a começar suas aulas com os dois pés atrás. Nunca gostei de escrever, redação era uma das piores matérias (eu tirava nota, mas fazia de mau gosto), e ligando os pontos tive certeza de que a azia me acompanharia todas as quartas-feiras de manhã. Como exemplo tem o dia em que na aula, diante de textos, questões, explicações e mil coisas, eu travei e da minha boca só conseguiu sair o pedido para me retirar da sala. Chorei.. o que precisava fazer há tempos por causa de redação, da dificuldade que tinha (por mais que seja orgulho, não aceito não ser boa em alguma matéria, estudar é o que faço de melhor). Você conversou comigo depois, me falou pra eu ser forte (tudo bem se não lembrar) e confesso que depois me senti um tanto quanto envergonhada por me mostrar tão fraca diante de alguém como você. Pois bem, o tempo passou e fui me acostumando, você era muito mais afável do que eu imaginava, e o meu conforto com a aula cresceu quando eu, finalmente, entendi o que era uma dissertação (você não tem noção de como eu passei a encarar a matéria depois disso, juro).
Já mais calma, escrevia. Não adiava mais as lições, comecei até mesmo a fazer com vontade, confiando na gramática, na maior parte das vezes correta, que a leitura me provera. Por volta dessa época meu irmão entrou no Pandora, já com a escrita maravilhosa que tem e pensando o mesmo que eu no começo do ano quanto a você. Contudo, em menos aulas ele mudou, e a palavra "legal" passou a unir-se ao seu nome quando esse era o assunto. Com o tempo, mais palavras. Ele adorava (e adora) suas aulas e percebeu que você não é "grossa" (usei a palavra até agora mas a considero muito forte, mas é o que falávamos), apenas não forja uma delicadeza. Apenas é você. Nossas opiniões bateram nesse ponto, até o dia que ele me contou que, escrevendo uma redação no pátio do cursinho, você passou olhando, conversando com o pessoal, e quando bateu o olho na dele, disse:
- Que letra linda! Régis Cardoso... você é irmão da, da...
- Da Ingrid, isso.
- Ahh, ela é uma fofa e escreve muito bem.
Eu, de fato, fiquei meio incrédula quando ele me contou. Primeiro porque eu admirei por você ter se lembrado de mim, pois sei que vocês tem mais de mil alunos e é normal não se lembrarem, e também pela parte sobre eu escrever bem. Hoje, com mais segurança, sei que meus textos saem pelo menos bons, porém na época não fazia com metade do gosto com que faço hoje, por isso fiquei um tanto quanto pasma. Caramba, era um elogio vindo de você! Eu até pensei que tinha falado por falar, mas sei da sua sinceridade. E que você não fala nada por falar.
O tempo passava, e mais vezes entre conversas o Régis me dizia: "Ela gosta de você, Inguinha", e eu passava a acreditar nisso na mesma proporção em que meu carinho por você aumentava. Tão forte, decidida, sabe defender o que pensa de uma forma admirável, o que é no mínimo encantador pra quem ouve e encontra tanto sentido nas suas palavras. Mesmo eu, que me vanglorio por não aceitar nada de cara, de ninguém, por mais que me questionasse sempre concluia o quão lógico era o que ouvia. Somado a isso, quando li seus textos, senti em cada linha pela qual meus olhos percorreram a Marcella tão sensível que existe ali. Me recuso a por em poucas palavras o que há por trás de todas as suas, só digo que elas tocam, e como tocam.
Os últimos anos da minha vida têm me trazido mudanças enormes, em todos os níveis. Sempre amei conhecer, aprender, entender como tudo funciona, e esse ano no Pandora, com a maioria dos professores, tenho recebido mais do que conhecimento quanto à matéria, para ser aplicado num vestibular, mas sim ideias que levarei comigo para a vida, que estão me formando, que respondem a muitas das minhas perguntas. Ah, como argumentar é bom! Essa época de eleição que passou eu "comprei" tanta discussão e soube findá-las, mesmo que sem convencer o outro (e sem ser convencida), mas a sensação de saber o que falar é ótima. Eu evito declarar uma posição quanto a algo com a idade que tenho, ainda mais porque tudo veio como uma avalanche até mim, mas sei com o que me identifiquei, e sei de quais aulas vieram muito disso.
Se ser professor é fazer com que o aluno entenda e goste do que vê, dispenso comentar seu êxito. E quando junto a isso a pessoa que ensina é única, desperta em mim verdadeira admiração. Não queria cair no clichê do simples "obrigada", mas sou tão grata a você por todas as aulas que tive, e me sinto no mínimo sortuda pelas que terei. Do conjunto de ideias e opiniões que me formarão mulher amanhã, tenha certeza de que nele há a doce e profunda marca de um batom vermelho.